quinta-feira, 28 de novembro de 2013

LUDUGERÁVEL POETA, SONHADOR EM ACORDES, João Maria Ludugero


LUDUGERÁVEL POETA, SONHADOR EM ACORDES,
João Maria Ludugero.

Eu sei que traço uma poesia fortemente engajada na trilha da alma varzeana. 
Talvez o estio em abundância, a leva da lida varzeana alimentem, dia-após-dia, a prontidão dos fios da meada dos versos de João Maria Ludugero. 

Porque há em evidência nos meus textos a tangência do fôlego de esperança que só os poetas e adivinhos pressentem ao afastar o medo da cuca, sem carecer de ser cabotino nos meandros de sua poesia. 

Porque num mundo de aprendizado é preciso cuidar das palavras como se, no seu ventre, elas trouxessem o núcleo prenunciador de uma outra seara. 

Assim, quase tudo em minha escrita quer voar. Minha gente, pessoas jovens, adultas e grisalhas, os lajedos de pedras ao limo, o fogo, a casa situada pela Várzea das Acácias. Porque meus versos sugerem um ritual de iniciação ao belo, uma reaprendizagem do fascínio. 

Isto posto, reafirmo de pronto e o arteiro poema confirma: sonhar é uma imitação do voo liberto, sem fojos ou arapucas...

Só o verso alcança a harmonia que supera os contrários - a condição de sermos terra e a aspiração do eterno etéreo. O poeta vai e a pedra lhe concede a inspiração. Toca no fogo e lhe empresta a ideia da febre da água, como que visando amenização.

De tal sorte, sobrepuja a magia de quem recusa a condição terrestre, ilusão da eternidade, pois, de certo, as aves e os sonhos não envelhecem. É feliz a idade nova que se achega além das asas da penumbra.

Sou, pois tradutor de uma caligrafia que só a pluma da asa pode redigir, reinventa as imensas paisagens do seu torrão, a geografia da ternura que só os pássaros sabem percorrer. E, de nesse diapasão, voo até fora da asa, sem temer assombração.

Pois, a correr dentro e alto em regalias metafóricas, João Maria Ludugero não escreve apenas sobre aves por ter um coração passarinheiro. Escreve em pássaros, a esvoaçar, dentro e alto com o poema alegrando o coração, contenta o ambiente por onde passa. Daí as trevas se dissipam, o choro dá lugar ao riso, a angústia à esperança, a dúvida à confiança absoluta. E por aí, adiante se aventura com sua temperança em escrever seus versos e textos a ganhar o mundo, com sua alma de menino medonho...destemido e levado da breca.

Isso é o mais importante, o que realmente tem valor, o cenário para a verdadeira
felicidade não delimitada ao voo das palavras que se agregam consentidas a voar pelo vão do interior de uma aconchegante escrita. E assim catapulta seus poemas, a abrir celas, porteiras e cancelas... de sentinela ao voo, indo além do horizonte!

SAUDADES EM ACORDES DE SONHOS, por João Maria Ludugero

SAUDADES EM ACORDES DE SONHOS,
por João Maria Ludugero.

Não me desassossego quando a perfeição desse teu voo 
Roça a Várzea que me envolve. Mas, afinal, o que sentes agora?
Há sempre a saudade nestas coisas da vida,
Mesmo a mais silenciosa, e, nesta lida de incessantes procelas,
Olhares ultrapassam a linha do horizonte da minha Várzea.

A cada retorno aumenta a distância entre as margens estanques,
Paradeiros que se esbugalham além do apogeu do estio,


Enquanto me descanso do outro que me habita,
Regressam ecos de recordações, alguma morte derradeira,
O que procuras pelas memórias já tão gastas, oh, coração partido?
Perguntar-me-ias por entre cirros que tapam a sombra 
Da algarobeira da praça do encontro.


Saberei sempre voltar a colher cajus ou cajás, 
Um balaio de mangas no Itapacurá 
Pelo vão dos ariscos ou dos Seixos,
Ou próximo aos lajedos e lagoas compridas,
Acolhendo meus passos em volta,
Em mais um crepúsculo que se esgota,
Sorrateiro, silencioso, nostálgico…


E, mesmo que a viagem prossiga depois,
Ou, que a manhã esconda a Estrela Dalva,
Digo-te, sem nenhum medo da cuca atroz
Que o silêncio que me habita ainda está acordado
Por estes agrestes por onde eu me acho a reverdecer
Além mais, dentro e alto, nesta seara de Ângelo Bezerra,
Muito bem dentro do horizonte da minha Várzea amada!