sábado, 17 de setembro de 2011

UM CERTO JOÃO MADURO

Autor: João Ludugero

Para reverdecer careço 
De muito pouco:
Quero apenas a sombra do umbuzeiro,
Quero cercar-me de flores, girassóis e colibris
Quero um cajueiro todo em flor, 
Flor-essência em poesia.
Quero maturis,
Ou seja, o começo
Do caju ainda novo, 
Ou, propriamente, 
A castanha verde, grande e mole 
Do caju antes do desenvolvimento 
Do pedúnculo, 
Antes da maturidade.
Quero colher e ser colhido,
Tal qual manga madura no pé,
Ser apanhado feito caju e castanha
De manhãzinha, enchendo bacias. 
Quer ver eu dar rasteira no banzo,
Basta me dar uma tigela de leite azedo, 
Um prato de coalhada com mel e sequilhos. 
Na verdade, peço muito pouco. 
Rapadura, feijão e farinha 
E uma hora de rede na tarde amena
Preciso de nada mais não!
Deitado à sombra sagrada
Do meu pé de graviola, 
Dê-me uma enlaçada todo dia,
Que eu cerco o mundo 
Num instante, ligeiro,
Só pra os bichos não se perderem
Lá da minha terra prometida
A que chamo com galhardia
De minha Várzea das Acácias!

Mãos dadas.

Por: Francisco Diniz



                                                                                                                                   Um dia desse eu vinha caminhando numa das ruas do centro de minha cidade quando vi caminhando na calçada no sentido contrário ao meu um casal bem idoso.
Eu parei discretamente e fiquei observando os dois passando ao meu lado numa conversa animada que continuou até dobrarem numa esquina e sumirem de minha vista. Até aí tudo normal, o que me fez prestar atenção no casal foi o fato de apesar de idosos os dois estavam andando de mãos dadas como um casal de namorados.   
Parado eu estava e parado continuei observando-os e refletindo com o que acabara de ver. Foi então quando resolvi retomar meu caminho que topei com outro casal, agora um casal de adolescentes também andando de mãos dadas da mesma forma que o casal de idosos.
A diferença entre os dois casais foi que o casal de idosos demonstrava uma cumplicidade provavelmente adquirida em anos de união, enquanto no casal de adolescentes eu vi o sentimento juvenil de posse e ciúme.Mais uma vez fiquei parado refletindo sobre o que acabara de ver e fazendo uma comparação entre os dois casais. 
Lembrei-me dos meus tempos de adolescente onde também segurava na mão de minha namorada como se ela fosse um objeto e ficava acintosamente demonstrando para os possíveis concorrentes que aquela já tinha dono. 
Depois de observar os dois casais passarem por mim de mãos dadas, retomei o meu caminho pensando se um dia terei a mesma sorte do casal de idosos e andar conversando calmamente de mãos dadas pelas ruas de minha cidade.

SONHOS NÃO ENVELHECEM...

Autor: João Ludugero

Olá, meu querido velho!
Como vai minha velha!
Assim os chamo com todo carinho
Ao vir aqui buscar inspiração
Para escrevinhar este poema.
E inspiro-me, não apenas
Em rugas e marcas,  
Não apenas em faces encarquilhadas,
Não apenas em respeito
Aos teus cabelos grisalhos,
Mas na vontade de bem-quereres
Continuar a viver a vida!
Cadê aquela ávida chama que inspirava emoção,
Que vertia da tua alegria de viver em plenitude?
Apesar dos pesares, da tua mão impaciente e cansada,
Apesar das agruras da lida, dos anos idos,
Quem foi que disse que não se pode inspirar
Nessa vontade de ainda viveres, cada vez
Mais querendo nos fazer aprender convosco,
Que muito ainda têm para nos ensinar,  
Assim trocando experiências.
Não esquecendo de que um dia
Também chegaremos lá.
E que lá no final das contas, de certo, 
Vamos querer sim poder usufruir
Dos dividendos de uma vida digna
E ser respeitados como pessoa.
Portanto, procuremos ver o idoso 
Tal qual aquele beija-flor
Que poliniza a sua experiência de vida
Em cada um de nós.
Então, deixemos esse colibri continuar
Este bonito trabalho, valorizando mais 
Nossos beija-flores e com isto,
Certamente, tendo uma vida mais saudável
E repleta de recordações.
Para que num futuro próximo possamos
Chegar a ser um beija-flor amado por todos,
Um pássaro ainda cheio de garra e, por que não dizer,
Traços de juventude dentro do peito a sonhar, 
Porque os sonhos não envelhecem,
Apenas murcham como uma flor
Esquecida num canto do jardim.
O idoso precisa ser respeitado,
Preservemos, pois os nossos beija-flores,
Cuidando do nosso jardim com mais esmero.
Quem sabe assim não nos sobre apenas o consolo
De virmos parar num desses 
Abandonados abrigos de velhos!