quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

JABUTICABAS EM POEMA, por João Maria Ludugero

 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
  JABUTICABAS EM POEMA,
por João Maria Ludugero

Olhos de jabuticaba aos solavancos
Não é a cor que me perturba
Nem é  só o brilho desse olhar 
Que avança ao sol
Tão intenso, ávido e raro!
Teus olhos têm um quê 
Que me faz esbugalhar
Em magia de beija-flor ao desvario.

Feitiço em alvoroço de olhares
Que se fiam na meada do rebuliço,
Sem critério a correr dentro
Em estripulias pelo interior
Quando meu olhar adentra o teu,
E nem imagina a ideia prolixa
Além da confusão que cria!
Arritmia em galhos,
Palpitação de ideias,
Chamego e cafuné
Fora da compostura... 

Desconcentração em delícias
Ufa!Os teus olhos me tiram o ar,
Mas não me apavoro em saideira
Em alvoroço me cerco inteiro,
Na fugacidade dos teus néctares
A marejar meus olhos medonhos
A espiar teus olhos de jabuticaba!

VÁRZEA-RN: MEMÓRIAS DA TERRA E SUA GENTE, por João Maria Ludugero

BANDEIRA DE VÁRZEA RN
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
VÁRZEA-RN: MEMÓRIAS DA TERRA E SUA GENTE,
por João Maria Ludugero

No princípio era o Educandário Pe. João Maria
- A repetição monótona do be-a-bá
As estridentes vozes da velha infância
Enchendo a sala, as ruas, os becos, a manhã.
Sem esquecer de lembrar da calçada 
Da igreja de São Pedro Apóstolo!

No princípio eram os folguedos 
De São João e São Pedro
- As casas enfeitadas de lanternas,
A quadrilha de Seu Bita Mulato,
O pastoril de Joaquim Rosendo,
As ruas como naus embandeiradas,
Atravessando a noite lentamente.

No princípio era o pastoril varzeano
No fim da rua do Arame, perto da bodega
De Zé Anjo, irmão da Liu de Lió;
As pastorinhas começavam assim:
Boa noite, meus senhores todos!
E a velha noite se transfigurava,
Repleta ficava a lida mais bonita
Sob o comando de dona Neda
E da atenção de Antonio Horácio. 
Naquele tempo o "boi" vinha dançar
Em frente à bodega de Zé Anjo.
O "mateus", (trr-uuu abre-abre lalaia!)

Passava a batuta na barriga da gente
Mas ninguém ligava,
Ninguém se retirava
-Continuávamos impassíveis, dentro da noite,
Esperando pela morte do "boi".
(Ai, boi-de-reis, que morrestes tantas vezes,
Para alegria ou tristeza de um magote de meninos!)
Naquele tempo vinham os beijus, os quebra-queixos 
Brotes de araruta, os puxa-puxas, cocadas, sequilhos
As tapiocas de coco e as bolachas-regalias em brotes
E espalhavam na descida da rua São Pedro:
Bodes, cabras, carneiros, galinhas, capados,
Palhas de coqueiro, mangas, laranjas, umbus
Cajus, tapiocas, cocos verdes, cajás-mangas,
E a sua fala se arrastava cadenciada pelo interior
Nas calçadas da igreja de São Pedro até a rua Grande.

Depois de tantos sóis,
Depois de tantas luas, aos solavancos,
Depois veio a saudade a correr dentro e alto,
Depois, esses desvairados soluços no meu peito
E essas lembranças acordando sombras
Pelo interior da Várzea de Mateus Joca Chico.
Como eu te amei, Várzea do meu berço!
Cadê Xibimba? Bidu, Craúna, Neco Roco, Zidora,
Santina de Ocino, Nezinho, Helina de Pinga-Fogo?
Cadê Nina, Graça de Thor, Nanuca, Conceição de Zuca Dama,
Rosa de Antonio Ventinha, Graça de Zé Baixinho, Bita Mulato?

Quero vagabundar de novo pelas tuas ruas:
Passar na rua da Pedra, pelas Quatro Bocas,
Visitar a casa de Joaninha Mulato, a rua da Matança,
Voltar ao inesquecível Beco de Antonio Duaca, 
Ver o sítio dos Quilaras, visitar o Umbu, o Itapacurá
Subir ao Alto dos Rodrigues, e chegar de repente à Forma
A colher manga ou banana no Arisco de Virgílio Bento,
Quiçá ir direto ao riacho do Mel de Pasqualino Teixeira,
Ou se achegar ao sítio de Zé Canindé ao Gravatá...
Quero falar com tuas famílias de Caicos, Rodrigues, Belos,
Sinhás, Mulatos, Bentos, Gomes, Carvalhos, Elisa e Querubina
Anacletos, Limas, Nenas e Picica de Xinene de Cícero Paulino.

Quero subir na torre da igreja de São Pedro Apóstolo
E espiar lá do alto, além das andorinhas das duas palmeiras 
A vastidão da seara do vapor de Zuquinha.
Deixa-me pensar que ainda és a mesma, minha Várzea,
E que ainda poderei encontrar na calçada da igreja, 
Todos os que me viram menino,
No tempo em que amávamos
Desesperadamente a vida.
Deixa-me passar de olhos fechados
Pela Escola Dom Joaquim de Almeida,
Que não era absolutamente para mudar,
Que era para ficar a vida inteira,
Como no tempo em que eu estudava
No Educandário Pe. João Maria,
Da Professora Maria "Marica" Fernandes...
Eu ainda não sabia que além da Várzea das Acácias
O mundo era tão grande!