domingo, 15 de dezembro de 2013

INTEIRO, por João Maria Ludugero


INTEIRO,
por João Maria Ludugero.

Que meias vitórias,
Que meias verdades, 
Que meias vontades, 
Que meias saudades, 
Que meias que nada...
Eu sou João Ludugero
Eu curto ser inteiro,
Metade eu estico e esculacho.
Acerto o compasso, amiúde,
Tomo cuidado com o meio-fio,
Viver pela metade é ilusão. 
Tire suas meias,
Acerte o fio da meada,
Ponha o pé no chão

Ou inteire-se no voo!

ALVORECER, por João Maria Ludugero


ALVORECER,
por João Maria Ludugero

Várzea,
Minha Várzea,
Contigo não sou vazio
Me preencho
Me sacio
De vida e de coragem,
Assossego o coração,
Relaxo
O corpo
E o espírito

Quando me chegam as sombras
Quando cai o breu da noite 
Quando tudo parece escurecer,
Quando tudo aparece cinzento
Ou em branco e preto, 
Recorro ao teu aconchego
Sinto-me firme,
forte e destemido

É aí que sinto tua mão
Encostar na minha cabeça,
A me fazer cafuné,
Me acalmo, durmo tranquilo.
Sei que está chegando o dia
Só pra tudo de novo alvorecer!

FERNANDO DE NORONHA, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Não é só de manjar, 
Mas com certeza está aqui o habitat da beleza 
Entre o mar, os rochedos e a areia cintilante 
Reinam o encanto e a harmonia, com certeza 
Na vastidão que se desnuda, provocante 
A brisa faz brotar a inspiração das ideias. 
Nada é igual ao que se tinha em mente, 
Do mar a ilha se ergue, em devoção... 
O sol, como súdito, beija a areia quente 
Da praia, é o oceano que matiza a vista 
E faz do mar em esmeralda, a poesia, sua morada solene
Nas profundezas, a vida explode, com iridescente fulgor, 
O céu repleto de estrelas, em seu espelho vêm mirar.
Reino encantado de inteiro esplendor 
O paraíso aqui se encontra e vai além
Das águas transparentes, nada é menos que mergulhar 
No portal nascente da beleza onde o sol vem se mirar. 
Antes, agora e depois sua melhor definição 
É a de que se chegou ao mais belo paraíso!

CABEÇA FEITA, por João Maria Ludugero


CABEÇA FEITA, 
por João Maria Ludugero. 

Cato palavras como quem busca água 
encho os olhos d'água 
espicho minha alma no varal 
disposto só de cubar o vento 
me reinvento, me restauro 
feito lagartixa no lajedo 
não mato minha sede, 
vicejo de tanto andar 
compondo versos 
já me acho no jeito 
de fazer poesia 
só de manjar não sacio a fome 
e quando a cuca pega sem rimas 
de cabeça feita, sem alarde,
papo meus bichos!

LUDUGERÁVEL, por João Maria Ludugero


LUDUGERÁVEL, 
por João Maria Ludugero.

Eu me chamo 
João Maria Ludugero.
Ele se chama, na verdade. 
Ele se ama, 
Mas não procure entender
Essa chama acesa 
A reluzir dentro e alto,
Uma vez que a poesia 
O torna inflamável...

VENTO/VENDAVAL/VENTANIA, por João Maria Ludugero

VENTO/VENDAVAL/VENTANIA,
por João Maria Ludugero

Eu tenho um pedaço de vento. 
Que me ensina coisas singelas, tão simples e tão belas…
Já me ensinou a gostar até de café em caneca de ágata. 
Ele me faz sorrir (rio e como me faz deslanchar). 
É um vento engraçado, moleque afoito, levado da breca, escancarado,
que me ensina coisas, mesmo sendo um vento tão jovem, quase uma brisa. 
Faz tempo que me vejo seu aprendiz, assim no papel de aluno ao sereno . 
Isso me comove. Voo com um vento lindo, contemplativo a me inteirar
(eu falo no presente, mas o vento pra mim existe desde outrora, 
Por aí, solto, que é a condição primordial de qualquer vento). 
Ele me deu uns olhos, arre, que eu não sei 
(eu aprecio muito essa interjeição: arre). 
Não tenho como explicar. Como é que a gente coloca 
Em palavras um olho de vento astuto e medonho? 
Não tem explicação. Ele me fez aprender coisas, desvendar sonhos 
E foram tantas e tantas coisas em deslinde, acreditem. 
Eu não vou listar. Eu já falei do café lá em cima,
Mas houve muitas estripulias pelos arredores da lida. 
Sem pestanejar, sem sombra de dúvida, 
Essa não foi a única coisa que ele me ensinou 
E eu fico aqui, sendo exagerado. Pode ser, mas creio. 
Mas ele me ensinou até a esbugalhar os pelos da venta,
Quem sabe nem fosse um vento lá grandes coisas. 
Mas, evidente que era. Seu cheiro estoura os meus tímpanos. 
Puro turbilhonamento sinestésico em algaravia, mas sem medo da cuca.
Seus movimentos desastrados me colocam no lugar. 
Totalmente sem querer, é assim um vento que me faz querê-lo
Por perto, na minha cara pelo resto da vida, 
A não ficar de inventar as coisas verdadeiras.
Mas ele sempre acha uma fresta na janela de casa e ganha asas, 
Trata de escapulir, sair fora e ser vento em outros batentes e bandas. 
A gente até tenta manter o vento preso, mas é muito difícil fazer isso, 
carece de uma tecnologia toda especial, cômodos hermeticamente fechados. 
Eu o deixo aberto, solto a perambular a contento com toda firmeza
Numa rajada pelos alpendres, pelas varandas, pela vargem,
Feito vento a bater e logo sair fora, voando doido, a ganhar o mundo.
Depois fico aqui, com a janela aberta, esperando sei lá que coisa. 
Que vento. Que nada. Vento vadio. 
Eu abro e fecho a janela, de coração partido,
Mas não me cancelo a esvoaçar pelo vendaval, 
Sem temer que a friagem mata,
Pois ele retorna trazendo bons ares.