quinta-feira, 24 de abril de 2014

O MENINO DO REALEJO, por João Maria Ludugero

O MENINO DO REALEJO,
por João Maria Ludugero

Eu sou Ludugero
Desde que me entendo 
por Ludugero...
Sou escritor
Sou poeta
Sou pedra
Sou água
Eu estou na lida
Eu vou por aí
Astuto serelepe
Sem medo da cuca 
Menino levado da breca
Moleque maduro
Desde aqui
A correr dentro e alto
Pelo interior: Esvoaço!
Não. Não versejo o que sou. 
Escrevo o que não sou. 
Sou erva, mas não daninha,
Não me dano, eu me arrimo!
Eu acendo, eu me inflamo! 

Estou sem penas. Fiz asas.
Escrevo pássaro. Sou canção.
Sou o prumo do desembaraço.
Desentristeço. Escrevo contente. 
A poesia é sempre o reverso da estripulia. 
Não se trata de mentira em alvoroço o que faço.. 
Não sou mera coincidência. Sou gaiato e arteiro.
É que sou corpo desatado ao léu:
Sou asa esbugalhada de mim, medonho!
O vão é o lugar onde moram as coisas cortadas 
que ainda nos foram retomadas ao fojo da ventania...
Sou presença de ausências, dia-após-dia, desvairando a mente.
Daí a saudade, que é quando a carta do realejo não está onde está. 

O poeta escreve outro bilhete para invocar esse fardo ausente. 
Toda poesia é um feitiço fora da vila, uma cantiga em desvario.
Ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real 
Aquilo que está diamante no leito do vertente riacho minado, 
Sou rio a fluir na embocadura do vasto oceano,
Mas não tenho sede, ao percorrer o desafio do labirinto, 

Senão através do oásis-meio da toada que me nina...

quarta-feira, 23 de abril de 2014

MINHA VÁRZEA! por João Maria Ludugero


MINHA VÁRZEA!
por João Maria Ludugero

Em minha Várzea me sinto tão acolhido,
Que às vezes me faltam olhos críticos
Ou de justo encantamento
- A ela pareço estar suficientemente atento .
Se viajo, outras seguram o meu olhar curioso,
Predisposto a delas gostar consentido
- Há quase sempre a intenção de voltar.
Mas é à minha Várzea que relembro,
Bendizendo o meu lugar no mundo,
Aquele que reconheço como terra
E me reconhece como astuto filho.
Várzea minha, singela terrinha bacana,
Não apenas um terno espaço físico,
Mas um conjunto de sentimentos,
Modos de ser, posturas, rezas,
Que definem a alma potiguar,



Dentro da nossa alma varzeana!

INSPIRAÇÃO: VARZEAMAR - RESPIRE ESSA IDEIA! por João Maria Ludugero


INSPIRAÇÃO: VARZEAMAR - RESPIRE ESSA IDEIA!
por João Maria Ludugero

O lema do Varzeamar,
O sossego do Vapor,
Sempre
Sempre
Dentro de nós desatados!
O Varzeamar!
Cercando
Prendendo as nossas trilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre 
Nas faces dos varzeanos,
Beirando nas areias das nossas afoitas eiras,
Batendo a sua voz de encontro aos Seixos,
Balançando os cajueiros que vão por estas leiras.
O Varzeamar!
Repondo rezas em caras e bocas,
Deixando nos olhos dos que ficaram
A saudade resignada de lugares do interior
Que chegam até nós nas estampas das ilustrações
Nas fitas de paisagens inteiras desentristecidas
E nesse ar da tarde amena que nina aos varzeanos
Quando desembocam para ver as águas do rio Joca!
O Varzeamar!
A esperança na carta de longe
Que talvez não chegue mais!
O Varzeamar!
Saudades dos velhos habitantes 
Contando histórias do tempo
De outrora passado a limpo,
Além da água verde-musgo do açude do Calango,
Um magote de histórias da Várzea que uma vez virou cantiga.
De ruas, becos, de quatro bocas abertas desde o Riacho do Mel
Até os açoites agalopados do Itapacurá de Tio João Pequeno!
O Varzeamar!
Dentro de nós todos,
No canto do Vapor de Zuquinha,
No corpo das varzeanas morenas,
Nos coaxares dos sapos, caçotes e jias,
Num desejo da leva da viagem
Que não se findou nos sonhos de muita gente!
Este é um convite de toda a hora sem rima
Que o Varzeamar nos faz para a renovação!
Este desespero de querer partir o coração
Ao tempo de querer para sempre ficar por lá!
Inspire-se no interior.
Deixe o ar entrar.
Perceba melhor os cheiros do Varzeamar.
Sinta mais disposição no seu dia-a-dia.
Tenha momentos mais agradáveis 
Com os amigos e a família:



VARZEAME-SE!

terça-feira, 22 de abril de 2014

MENINO POETA CANTIGUEIRO, por João Maria Ludugero

MENINO POETA CANTIGUEIRO, 
por João Maria Ludugero

Tenho um caçuá de estripulias
Feitas por um magote de meninos
Gosto de me entreter com essas traquinagens
Que me elevam à breca arrimado ao vento.
Minha avó Dalila dizia que eu caminhava astuto
A soprar as hélices dos cata-ventos em algaravias
Eu sou mesmo um menino cantigueiro ao relento,
Que desde cedo saía correndo dentro e alto
A se soltar junto aos preás na lida a ganhar o mundo
Como se fosse um deles no burburinho do tempo.
Minha mãe Maria Dalva feito estrela em relance
Bem que tentava me aprumar as orelhas em riste,
Mas bem mais me assanhava os pelos da venta
Ao me ver galopar em apressado carrinho de rolimã.
O Ludugero sempre era apanhado em despropósitos.
Muita vez chegou a alicerçar taipas de pau-a-pique
Em habitat sobre acordes de capim renascido.
A vida reparava que o menino em desvario
Gostava mais de partir o coração e achar isso bonito
A correr dentro do desvão, mais do que fora do recheio.
Acreditava que flocos são maiores e até infinitos...
Com o tempo aquele menino varzeano danado
Que era cismado e esquisito, quase nunca ensimesmado,
Até se caçoava em carregar puxa-puxa e quebra-queixo,
A pipocar rojão de fogueteiros pelo interior da lida
Dentro de artifícios de São João e São Pedro.
Com o tempo descobriu que versejar
É como escrever para galgar moldes de estrupício
A se fitar em luas de tapioca e beijus em regalias.
Ao escrever o menino bem-se-vê desentristecido
Assim arteiro e bem capaz de ser bem-te-vizinho,
Sanhaço só ou sonhador ao mesmo tempo apanhado.
O moleque aprendeu a lavrar as palavras advindas.
Viu que podia fazer travessuras com as letras ávidas
E começou a tecer desafios fazendo oásis-meados alinhavos.
É até capaz de modificar a tarde amena,
Brotando sumos de laranjas nela.
O Ludugero faz medonhas divagações.
Até faz acender fogo em uivante ventania
E refloresce ao verde além dos horizontes cinzas!
A avó Dalila levava o menino ao açude do Calango.
E a professora Zilda Roriz falava: Esse menino vai ser poeta,
Pois vai garatujar redemoinhos a vida toda...
João Maduro vive a encher os vazios
Com atrevidas bugigangas, de sentinela,
E algumas criaturas sempre vão amá-lo
por suas arraigadas loucuras translúcidas!

ACORDES, por João Maria Ludugero

ACORDES, 
por João Maria Ludugero

Sem faz de conta,
Sonhar é o melhor que se faz na vida
Por isso que alguém passa
A correr dentro e alto
Da lida a brincar, espairecido,
A sorrir na festança que anima
Na celebração astuta a contento
Na procura de acordar os sonhos.
Mas de uma hora para outra
O sonho acaba de uma vez...
Daí a gente muda de lugar:
Se esvai por onde se achar
Noutros alcances do céu
De encantados sonhos.
Mesmo que no fim
Seja dormir sem alardes
Para acordar o sem fim de viver
Tudo de novo em acordes!

domingo, 20 de abril de 2014

VÁRZEA NUMA RUAZINHA GRANDE, por João Maria Ludugero


VÁRZEA NUMA RUAZINHA GRANDE,
por João Maria Ludugero

Pela rua grande
Aos solavancos
Avança o sol amarelo
Anda a simplicidade
Num lugarejo varzeano
Num agreste interiorano
Com poeira levantando
A esbugalhar a solidão dos dias
Dentro e alto de uma singela tarde amena
De onde vejo um pé de graviola
Desde o oitão da casa de Seu Odilon,
Várias casas caiadas de branco
Dentre tantas outras multicoloridas de alegria
Com janelas abertas ao vento
A evolar a perfumada brisa
Chamando baixinho
Alguém de lá dentro
E prossegue a ruazinha grande
Até as quatro bocas aos magotes
De meninos levados da breca
A partir de cancelas abertas
Na vida que se transforma
Em singelo e maravilhoso encanto
Ao surgir o semblante da beleza
Daquela que é flor espairecida
Daquela que é reflorescida
Daquele lugar que é amor
Para a festança dos olhos
Que em tudo enxerga
O repouso do paraíso
O jardim florescente de jasmins
Em cada recanto da seara de São Pedro apóstolo
De sentinela na torre da igreja-matriz
A proteger essa gente tão amada,



Tão arrimada em nossa Várzea das Acácias!