domingo, 22 de setembro de 2013

UM POTE DE LEMBRANÇAS, por João Maria Ludugero


Eu sinto que há um riacho que atravessa a casa. 
Esse rio, dizem, é o correr do tempo em dádivas.
E as lembranças são peixes nadando através da correnteza.
Minhas lembranças também são aves tipo canários de chão. 
Se há inundação é de céu, repleção de nuvem cheia de azul. 
E por esta nuvem eu sigo dentro da minha lembrança.
A casa, aquele habitat tão nosso, era morada iluminada 
Tanto de noite quanto de dia. E a gente se bastava,
Empolgando-se ao quebrar o pote da fantasia...
Estranho, dirão. Noite e dia são metades, folha e verso? 
Como podiam o claro e o escuro repartirem-se em desiguais? 
Explico. Bastava que a voz de minha mãe 'Maria Dalva de Seu Odilon'
Em cantiga se escutasse para que, na mais alta madrugada, 
Se abrisse uma alvorada de amores imensos. 
Lá fora a chuva sonhava, tamborileira. Pois, sim. 
E nós éramos um magote de meninos para sempre,
Levados da breca, a cometer divinas estripulias,

Fosse na chuva ou na estação do estio...
A gente se consentia em admiráveis embocaduras!

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