sexta-feira, 6 de março de 2015

VÁRZEA-RN VAPORIZANDO EM SAUDADES, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
VÁRZEA-RN VAPORIZANDO EM SAUDADES
Autor: João Maria Ludugero

O vento passa, esvoaça dentro e alto,
O tempo passa e repassa pela Várzea das Acácias.
Tudo passa além do medo da cuca esbaforida,
Nas eiras, leiras e beiras do coração.
Lá dentro, perdura a beleza plena
Que nos faz assanhar até mesmo
Os pelos da venta, aproximando-nos
Do amor, reflorescido na animação
Das multicoloridas onze-horas.

O tempo nos traz as rugas,
Cada vez mais, rusguento nos reduz
A um só verso em eufórica cantiga
Feito afoito bem-te-vizinho ao Vapor de Zé Catolé,
Hoje sob o comando de Seu Zuquinha...

Há um tempo redobrado a correr 
Pelas bermas do Itapacurá
De Tio João Pequeno, além da seara 
Das pitombas de dona Julieta Alves.
Bom tempo a economizar, 
Além do relicário de memórias vivas.
Mas o tempo é passado a limpo, 
Além da sinfonia dos sabiás e das patativas,
Sem esquecer das cancelas e dos fojos de apanhar preás,
Depois de há tempos vestido de volta-ao-mundo ou chita
Em flores miúdas dispostas nas proezas 
Do agreste de Ângelo Bezerra
Bem assim, na avidez de varzeamar 
O interior de Madrinha Joaninha Mulato.

O meu tempo e o teu, ó rezadeira Dalila,
Ó Mãe Claudina, varzeana senhora da Luz,
Ó Carminha, que também tantos umbigos elevou,
Suas experiências transcendem qualquer medida.

Além do amor, não há nada,
Varzeamar é o sumo da vida,
Além do chão-de-dentro 
Dos galos-de-campina, dos tetéus,
Dos anuns, dos canários, dos sebitos, 
Das andorinhas e dos pintassilgos.

São mitos de arribação em tantas horas extintas
Ao deslinde da paixão renovada em esperanças
Que já trouxeram tanto verde musgo aos Seixos
Na frutífera estação dos cajus e das castanhas
Pelo vão das mangas dos Ariscos de Virgílio Pedro,
Pelo Umbu e pelo Maracujá dos cocos, 
Canas-caianas ou curimbatórias
Pela bem apanhada colheita 
Dos cajás-mangas, tamarindos e pitangas
Ou pelo desvão do carro encantado,
tanto o ontem como o agora,
Em teus alvissareiros caminhos,
São um não deixar morrer o sonho,
Desde a lenda da mulher que chora...

E nosso amor, que já brotou sem esmorecimento
Do tempo dos queijos, das coalhadas, 
Dos beijus e das tapiocas
De dona Tonha de Pepedo, 
Enquanto isso tudo não tem idade,
Pois só quem varzeama escutou
O apelo da eterna varzeanidade
Na abençoada seara potiguar de dona Zidora Paulino,
Engenhosa dona-de-casa, arteira 
E bem-feitora de tantas iguarias,
Comidas típicas inesquecíveis assim 
Como brotes, cuscuz-de-milho-zarolho, bolo-preto,
Raivas, carrapichos, línguas-de-sogra, 
Peitos-de-moça, puxa-puxas, quebra-queixos
Em sonhos de dar água na boca 
De qualquer menino levado da breca pela Várzea
Da praça do Encontro Cleberval Florêncio, 
Neto de dona Júlia Rosa e de Seu Lula,
Inesquecíveis Mãe e Pai 
De Severino 'Silva' Florêncio Sobrinho!

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