sábado, 14 de maio de 2011

Cheiros do Itapacurá

Autor: João Maria Ludugero

Sim, eu nasci com um olfato bem apurado.
Desde cedo eu gostava de sentir os cheiros
Que beiravam as estradinhas de terra.
Eu gostava de ir da Vargem à margem do rio Joca
Buscar um cheiro de mato no meio dos juncos.
Era essa aragem campestre 
Que me levava ao Itapacurá,
Onde ficava a casinha simples
Do meu tio João Pequeno.
Paisagem singela rodeada
De cheiros silvestres,
De mato verde, de hortas 
E de frutos maduros.
Além de flores de laranjeiras
Exalando cheiros da manhã.
Aromas que atravessavam 
Os vertentes olhos d'água
Que iam dar no curral perto de casa.
E adentravam os corredores da tapera,
Numa arenga do tempo a se espreguiçar manso,
A se enramar pelos melões-de-são-caetano
Nas cercas verdes, pelos jiraus e bicas a fora,
Sem avexar esse moleque menino
Afoito a correr, desgarrado entre águas-de-cheiro e ruídos, 
Até se achegar às flores frescas
Dos jarros de dona Zefinha,
A adornar a mesinha do oratório da sala de bem-estar,
Onde imperava a moldura da Sagrada Família:
O Menino Jesus, a Virgem Maria e o divino São José. 
E agora o que me ampara, de fato, 
É perpetuar meu gesto inquieto,
A fazer versos como quem reza,
Feito aquele devoto varzeano, 
Ainda me seguro na Fé
Que nunca me deixa desmoronar. 
E assim me levanto nesta Poesia
Recaindo em lembranças
Na fixação daqueles aromas e perfumes,
Que me enlevam a viajar longe, longe, 
Só pra sentir bem de perto o meu Itapacurá.   

6 comentários:

Sil Villas-Boas disse...

Bela poesia
Belas paisagens
Belas memórias e sentimentos.

Tudo Lindo aqui, João. Parabéns.
Bjusss
Sil

João Ludugero disse...

Querida Sil,
Boa noite! Ou bom dia! Obrigado pelo carinho. Eu sempre quis fazer um poema para o meu Itapacurá, um sítio lindo, cheio de pássaros a bicar frutas maduras e um rio a formar um pequeno açude repleto de juncos e mini-vitórias régias. Esse lugar existe e é modesto,mas que enriquece o espírito de quem por lá passa. Gosto de sempre visitá-lo nas férias de janeiro, quando as galinhas-d'água arribam pra lá a enfeitar o mato verde perto da casinha do meu tio João Pequeno!
Acabo escrevendo e dá nisso: Poesia!
Hiper abraço,
João.

paulo disse...

Lembranças de lugares onde a paz perdura em meio aos aromas silvestres das paisagens de mato e frutas maduras, nos dão a sensação de que o paraíso existe.
Eu acredito.

Abraço

Tatiana Kielberman disse...

Os cheiros falam tanto de nós e por nós, não é mesmo, querido João?

Lindo poema, parabéns!!

Adoro conhecer mais suas origens...

Beijos!

João Ludugero disse...

Querida Tati,
Boa tarde!
É verdade, os cheiros envolvem a alma da gente de tal maneira que ficam guardados assim como uma música quando toca o coração da gente. Adoro senti-los, e acho que vai ser sempre assim, até quando o corpo teimar em não mais escutá-los... Eu disse isso mesmo: escutá-los! Porque os cheiros ecoam, vão e vêm por dentro, fazendo cabeças e corações que podem fixá-los, assim como numa poesia que retrata um simples lugar, uma lembrança, um aroma. Ótimo fds! Beijos na sua alma iluminada mente cheirosa.
Seu amigo João, metido a poeta.

João Ludugero disse...

Amigo Paulão,
Boa tarde!
Eu também acredito na existência do paraíso. E tanto assim que vai e vem eu o encontro, dentro e fora da minha poesia. Tem lugares bucólicos que nos enlevam tanto a viajar por eles que, parece que criamos asas, e acabamos a voar, seguindo os cheiros que hipnotizam a alma. Parece loucura viajar assim, mas tem horas que fecho os olhos e sinto a sensação de estar voando ao encontro deles, desses lugares mágicos, que reverdecem a alma e o corpo da gente. A poesia é um meio que me transporta, me conduz a lembranças e acabo totalmente regozijado. Acho que sou louco,mas me amo assim mesmo, sem marginalizar minhas loucuras, que tanto bem me fazem. Hiper abraço do João,
Sempre um amigo. Saúde!