terça-feira, 18 de outubro de 2011

Intervalo

Fernando Pessoa


Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado -
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?


Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?


Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?


Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?


Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.

3 comentários:

Tatiana Kielberman disse...

Sil, querida...

Sou verdadeiramente apaixonada por Fernando Pessoa - e ler esse poema no dia de hoje foi um grande presente!

De coração, obrigada...

O intervalo é a pausa necessária para o coração entender a intensidade do que acontece!

Lindo!!

Beijo grande...

Luna Sanchez disse...

Às vezes os intervalos ficam esmagados entre um "tum-tum" e outro, aqui no peito...

Beijos, Sil.

Cláudia Costa disse...

Sil,

Sempre trazendo sol pro nosso Jardim...E que sol! Fernando Pessoa é tão tudo...é sempre tão intenso quanto lindo. As letras, sejam as tuas, que tanto me encantam, sejam as dos nossos mestres que nos ensinam, são sempre sementes de luz, amor e sublimação por aqui.

Amo esse espaço, sou fã confessa das letras que aqui encontro.

Beijokas carinhosas,