sábado, 29 de outubro de 2011

O telefone - Francisco Diniz

Ainda me lembro quando ele chegou a mais de quarenta anos na casa onde fui criado. Chegou com a pompa de objeto dos desejos da família que pagou caro para tê-lo em casa.

Tinha um lugar de destaque num lindo móvel de prateleiras de madeira jacarandá e dividia o espaço apenas com um legítimo Rádio de Válvulas Holandês que há décadas fazia parte da família.

Me lembro que no começo eu era proibido de chegar perto dele e me diziam que ele era coisa de adulto. Até que um dia fui chamado para falar com um parente que morava noutro estado e pela primeira vez ouvi uma voz saindo do aparelho colado ao meu ouvido. Antes, só as escondias ouvia o “Tum Tum Tum” quando o colocava no ouvido e brincava que estava falando com alguém.

Fiquei tão eufórico ouvindo a voz do outro lado que sequer consegui falar, limitando-me a ouvir. A vergonha era tanta que quando tentei falar gaguejei tanto que me tomaram da mão me dizendo; menino me dá esse telefone que custa caro uma ligação para tão longe.

Ele ficou ali no mesmo lugar até o dia que fui morar no mesmo estado do tal parente e de lá ligava para ele matando a saudade da família e de minha casa.

Quando de longe ligava para casa parecia que ele possuía olhos e podia ver cada recanto da minha casa e as feições das minhas saudades.

Por ele passaram muitas vozes, muito se falou e muito se ouviu. Muita história foi contada pelos que morou naquela casa e dela ele mudou-se com a família para outra casa, desta foi para um apartamento e dele para outro.

Durante todos estes anos uma a uma suas donas foram o abandonando e indo morar num lugar de onde não podiam mais ligar dele ou para ele. Até que chegou o dia que ele emudeceu, pois não existia mais ninguém para chamá-lo de seu.

Nesse dia fui ao seu socorro e o trouxe para morar comigo. Eu não poderia abandoná-lo já que tinha a esperança de um dia nele ouvir uma voz familiar

Os dias, meses e anos foram passando e dele só saiam novas vozes e nenhuma do passado, elas calaram-se para sempre e nele nunca mais as ouvi.

Hoje ele está moderno, criou pernas e anda pela casa sem lugar fixo para ficar. Hora está na sala, hora nos quartos e às vezes até no banheiro. Só uma coisa nunca mudou em todos estes anos, o seu número.

Eu posso até nunca mais ouvir uma voz familiar sair dele, mas como a esperança é a última que morre. . . Nós dois ficaremos juntos com nossas saudades!

4 comentários:

Fernanda disse...

Interessante pensar nas histórias, segredos e revelações que já passaram por um aparelho de telefone. Alegrias e tristezas, encontros e despedidas...

Sil Villas-Boas disse...

Um texto bem cativante. Parabéns, Chico.

Leandro Lima disse...

kkkk bem massa!

Luna Sanchez disse...

Gostei imenso, me senti tocada.

=*