sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

MÃE CLAUDINA, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 MÃE CLAUDINA, por João Maria Ludugero

Oh, minha Virgem Maria!
vejo que lá do Calango
subiu um corisco
abriu-se um clarão
rasgando o céu
sol sumiu, acho
que se deitou no açude
deixando a tarde toda um breu

O véu do tempo se rasgou
tremeu terra e arvoredo partiu,
tremeu a cruz do rio 
parecia mais um rojão
daqueles de festa de São João,
só que de estampido maior
do que fogo de artifício

Estremecendo tudo
labaredas tão medonhas
a cortar as nimbos,
bem que vi fogo cair
do céu de São Pedro

A chuva caiu aos cântaros,
choveu noite e dia, sem trégua
feito tromba-d'água
veio a cheia do rio,
trouxe jias, trouxe sapos
a enchente alagou as capoeiras
encharcou os caminhos de Vapor

O Calango sangrou tão bonito
se derramou pela Vargem
o Joca se espraiou pelos roçados
sob o canto mavioso do bem-te-vi
no balanço das duas palmeiras

Lembro-me disso muito bem,
a gente tinha receio disso não,
pois o pavor se dissipava ligeiro
sob a reza forte de Mãe Claudina,
benzedeira de mão cheia,
que era também parteira
a gente sempre tinha esperanças novas

Ela, tão pequenina, enfrentava
de cabeça erguida, sem assombração,
munida apenas de seus credos,
de baforada em baforada no cachimbo
de fumo de rolo, confiante na fé,
destemida, afastava até mesmo
os perigos da natureza

que viesse raio ou trovão
ela não escondia os espelhos
pegava linha e agulha
e costurava nossos medos

Quem foi que disse
que havia tempo ruim
lá pras bandas da minha Várzea?
se ninguém ouviu, eu quero agora
com esses versos simples louvar,
bendizer a ilustre e bondosa Mãe Claudina,
guerreira de luz, saudosa senhora
desatadora de nós, 
um pouco mãe
de todos nós varzeanos...




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