quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

MAS E O AMOR QUE ESTAVA AQUI, CADÊ? por João Maria Ludugero


MAS E O AMOR QUE ESTAVA AQUI, CADÊ?
por João Maria Ludugero

Deixa estar, 
Só pra ver como é que fica.
Deixe ficar a porta aberta,
Quiçá Rosa volte de veneta,
E entre direto, emburaque
Casa a dentro, sem precisar bater.
Ela largou as chaves debaixo
Do esquecido vaso 
Das orquídeas secas,
Esturricadas no hall de entrada.
E o tempo a correr em escalada.
Se ela voltar, não haverá tropeços, 
Apesar do escuro que ali se alojou, 
Após a luz cortada.
Ela conhece de cor,
Até se vendados seus olhos,
Cada vão de escada,
Cada falso degrau
Da sala de estar,
Cada compartimento,
Cada trinco de janela
Que devido ao desuso
Emperrou os ferrolhos.
Não é de se estranhar, de certo,
Pois até na água da torneira
Deu ferrugem, ficou imprópria ao uso.
O tempo range que range nas enormes portas
Feitas em madeira de demolição. 
Ficaram sem lubrificar há um tempão 
E as dobradiças até parece que murmuram, 
Quando se abre a casa
Só pra entrar o vento, 
A fim de arejar o tafetá das cortinas
E a tapeçaria pendurada na parede.
O vento espana os mofos dos retratos,
Mas as assombrações se espalham,
Estas ainda penam pelos corredores
E arranham as pastilhas de vidro encarnadas, 
Quase a afogar o sol na gigantesca piscina.
Mas o sol se deixa entrar, abre as sombras
E devagarzinho se achega, manhoso,
Pega intimidade no quarto do casal,
Onde fora guardado, a sete chaves, 
Aquele amor de outrora, ora adormecido 
Numa gaveta de criado-mudo.
Discutiram a relação, debateram-se.
E agora, doutor, quem é que vai cuidar da gata,
Quem vai botar ração pr'o cachorro?
Eles pediram um tempo, deram-se espaço. 
Expuseram a outra face pra rua bater.
Nada adiantou. Roeram o osso, não teve outro jeito.
Acharam-se estranhos sob o mesmo teto.
A corda corroeu. Arrebentou. 
As distorções ganharam corpo, voz e musculatura 
Nessa era de sensacionalismo midiático. 
Circulou até em jornal a notícia 
Acerca do desfazimento.
Aquele velho amor não teve mais conserto.
Mas o amor se encontrou de novo: 
Só que no corpo de outra criatura, de cara nova,
E tudo ganhou um certo esplendor. Vida ávida!
O tempo no degrau andou, correu. 
E, apesar do enterro de um amor, 
Nenhuma lágrima sequer escorreu por ele.
O Amor continua cada vez mais vivo.
É só deixar ficar a porta aberta.
E o Amor? Não o conheces.
Ele vai, mas um dia volta,
Nem que seja de cara nova.
Só deixe ficar a porta aberta.
Nem que seja uma fresta.
Não digas nada. Ouça.
Não ouves o degrau?
Quem sobe agora a escada?
É outra vez o amor em festa,
Que divaga, mas chega.
Tão devagar que sobe. Entra.
Não digas nada. Apenas ouça:
É com certeza alguém que saiu da fila,
Que vai arrumar suas gavetas, 
Limpar a poeira, eliminar as traças; 
Alguém que vai desocupar seus troços,
Alguém que vai fazer sua cabeça, 
Alguém que vai chamar o chaveiro 24 horas
Para mudar o segredo da porta. Urgente,
Antes que o velho amor, num certo dia, errado
Dê na doida, dê as caras e queira fazer sarapatel 
Arrancando suas tripas, figado e coração!

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