sábado, 25 de janeiro de 2014

VÁRZEA-RN: POTIGUAR VARZEANIDADE PLENA, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
VÁRZEA-RN: POTIGUAR VARZEANIDADE PLENA, 
por João Maria Ludugero

Não só de cubar, mas olha, moço,
Várzea é isso que o senhor está se vendo:
Vargem, Vapor, Seixos, Ariscos
Um bocado deles,
Iguais e diferentes.
O senhor me entende,
Iguais pela natureza de proteger a gente contra o mundo,
De resguardar algum retiro para o sossego, dentro e alto,
Diferentes no interior de cada um em particular,
E no jeito de cada um enxergar o que vê, amiúde.

O senhor sabe, não só de manjar,
Mas tudo pode ser assim ou assim:
Lajedos, açudes, casas em ruas singelas, vias e becos, 
Soldas, sequilos, regalias em bolachas e bolo-preto.
O próximo e o longe, o fundo e o raso, juncos e beldroegas.
O lugar de dentro e de fora da Várzea das Acácias.

Se o senhor me permite,
Até o bonito e o feio, não tomo partido,
Encarnado ou reverdecido, o direito e o torto, 
O corujão e o bacurau,
Tudo tem o lado de lá e o lado de cá.
O que a gente vê e o que não vê:
As encruzilhadas, a ponte do rio Joca ao riachão,
Curvas e caminhos que levam ao Itapacurá.

É assim com as renovadas esperanças,
Assim é com as criaturas da seara do açude do Calango.
Todo mundo, na lida, é mais do que parece
Ou menos do que aparenta ser.
Assim é também com as histórias:
Cada um conta do seu jeito e forma
E estende à moldura da sua maneira.

É assim nos desencontros na praça do encontro,
O que um fala, o outro escuta a metade
Ou o dobro do que entende, e não se faz conta.
No pão-pão, brotes ou bolachões em regalias,
Aqui é o que acontece com a gente todo dia:
O de costume e o sem aviso, balaios e flandres,
Lugar aonde o Apóstolo São Pedro está lá de sentinela,
Mas não de costas para a rua do Arame!

Uma chuva distante, um eirado desassossego,
Uma tristeza ao estio, uma alegria em aurora,
O que Deus manda - seja de bom e de ruim -
Tudo misturado ao nicho das nossas virtudes,
Ou seria por merecimento aos filhos da Várzea.

A gente é que separa e leva a acorde os sonhos
Ao cair da noite no que atravessa o travesseiro.
No outro dia alvorecido, uma reza em punho se faz
Se Deus estiver de acordo, advém uma bênção em porvir,
O galo canta, a gente espreguiça e bem se anima consentido,
E a vida varzeana prossegue com esperanças novas...

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