terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A CANTIGA DA VÁRZEA, por João Maria Ludugero

 
 
  
 
 
 
 
 
A CANTIGA DA VÁRZEA,

por João Maria Ludugero

Eu sou a Várzea, eu sou o agreste.
Da minha seara primeiro veio o canário-de-chão.
Do rio Joca veio o chão-de-dentro do Vapor.

Veio o juazeiro, veio o mulungu em flor.

Veio o cajueiro, veio a flor e vem o bendito fruto
Na terra de Ângelo Bezerra que foi seu fundador.
Eu sou a vertente fonte da vargem além dos lajedos.
Sou o chão em que se escavou o açude do Calango.
Sou a abelha da colmeia que Zé Miranda coletou.
A cacimba constante de teu Riacho do Mel.
Sou a roça cultivada pelo teu povo nos Seixos
e a certeza tranqüila ao teu esforço junto à Lagoa Comprida.
Sou a razão de tua vida reflorescida com afinco.
De mim vieste pela mão do Supremo Arquiteto,
e a mim tu voltarás no fim da astuta lida.
Só assim além das quatro-bocas acharás 
o merecido descanso e a paz concedida
Por São Pedro Apóstolo padroeiro renovador 
das nossas nunca entardecidas esperanças...
Eu sou a terra da grande madrinha Joaninha Mulato.
Eu vim pelas mãos de Mãe Claudina, tua filha, 
Detentora do condão das luzes alvorecidas,
A mulher parteira do ventre que fecundas os Caicos.
Sou a gleba, as leiras e leirões da roça do rio Joca,
Sou o solo da plantação de milho, feijão, favas e macaxeiras.
Sou a seara das mandiocas, dos quiabos, da batata-doce, das melancias,
Sou a estação do mel de abelha-Europa, o melado das canas-caianas e curimbatórias, eu o pote da fantasia que se quebra a festejar o Amor.
A ti, ó varzeano, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, tua enxada, teu roçado.
O berço pequenino de teu filho do agreste verde.
O algodão de tua veste além da vestimenta de volta-ao-mundo
e o pão,o cuscuz de milho-zarolho, as bolachas de araruta, as coalhadas e os queijos, a carne-de-sol, os torresmos e as farofas de dona Rosa de Antonio Vetinha, os brotes, as regalias, as tapiocas, as soldas de dona Carmozina e os bolos-pretos de dona Zidora Paulino, as raivas,os peitos-de-moça, os sonhos, os sequilhos, os carrapichos de Marinam de Lica.
E assim, sem medo da cuca, um dia bem distante, 
capaz de assanhar até mesmo os pelos da venta, 
a mim tu voltarás, ó menino poeta João maduro Ludugero. 
E, sob as onze-horas e o canteiro de jasmim-manga de meu solo,
tranqüilo dormirás, ó eterno e tão medonho menino levado da breca!
Plantemos o roçado, cultivemos a lavoura de subsistência.
Lavremos a seara sagrada de Ana do Rego.
Cuidemos do ninho dos sabiás e dos bem-te-vizinhos,
dos pintassilgos, dos sanhaços, dos galos-de-campina
do gado, dos anuns, dos tetéus e das patativas.
Fartura teremos, apesar da estação do estio,
e donos da Várzea das Acácias e dos hibiscos,
contentes e tão bem-apanhados em acordes de sonhos, 
agradeceremos o apoio e o amparo recebidos de São Pedro Apóstolo!


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