terça-feira, 14 de janeiro de 2014

MEMÓRIAS DE UM MENINO VARZEANO, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 

 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
MEMÓRIAS DE UM MENINO VARZEANO, 
por João Maria Ludugero

E a gente descia com o sol 
pelas trilhas do rio Joca.
Picica ia na frente, devagar com os anzóis,
Xibimba ia com o samburá 
agarrado na saia da mãe, dona Lucila de Preta,
e da irmã Vira que conduzia o landuá aos ombros.
De repente, lá estávamos nós 
além do riacho da Cruz,
após haver saciado a sede nas minas d’água 
das cacimbas de Nozinho.
Era a caminho do rio salobro 
que enchíamos a cuia pra se refrescar 
e as cabaças de água para beber,
tomando aquele banho de lavar a alma,
desses de ver Deus a olho nu à sua frente.
Cá para nós, diz-se 
que água não tem cheiro, 
gosto ou cor… ledo engano!
Pois essas águas tinham sim, 
acho até que é por isso mesmo 
que remexem tanto com as minhas lembranças.
No estio, o Joca ficava mansinho… rasinho…
Descalços pelo vão do rio, 
dava até para atravessar a vau
de uma margem à outra andando
pela areia branca, morna e rasa. 
E voltávamos para casa mais leves
com a enfileira de graúdos jacundás,
após haver limpado a vista na beira do rio, 
onde catávamos doces ingás, canapu, 
melancias-da-praia e melões-de-são-caetano.

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